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maio 19, 2012 em Sem categoria
maio 18, 2012 em Arquitetura, Artnativa
(Fonte: http://mairaonofri.wordpress.com/)
Por Víctor Melo
Há algum tempo a palavra “Arquitetura” tem aparecido nas revistas e jornais com muita frequência, mais até do que deveria. Afinal, diz-se que todo excelente novo empreendimento imobiliário tem arquitetura neoclássica, moderna, ou sustentável e assim, atrai a todos os que podem pagar por ela. Arquitetura? Com certeza não. Para que a fosse, seria necessário muito mais que mera rotulação, marketing ou mesmo a simples aceitação de que ela é o que é, de que se adaptou ao sistema; e, principalmente, para entender e identificar o que realmente é arquitetura, precisamos voltar a senti-la.
Bruno Zevi, entre os diversos temas abordados em seu livro Saber Ver a Arquitetura, critica o modo atual que usamos para representar a Arquitetura (plantas, elevações, cortes, perspectivas, etc.), e, procurando uma nova maneira de fazê-lo, sugere o Cubismo, pois esse segmento artístico não apresenta um momento específico, atemporal, mas sim multitemporal, de modo que quando nos deparamos com um trabalho cubista, vemos ao mesmo tempo diversos ângulos da mesma situação, ou seja, a obra mostra a vivência que o artista teve quando estava criando.
Há muito mais do que um simples registro da cena, há uma tentativa de recriar a situação, não mais pela perfeição das técnicas, mas pela sensação que se quer repassar. Assim, para entendermos minimamente arquitetura, é necessário, como nas obras cubistas, que a vivamos e que entremos em cada ambiente com os sentidos dispostos a novas percepções, pois o som produzido nele, o calor (como troca de energia térmica), a ventilação, a iluminação, a disposição das dimensões e das formas e todas as outras sensações possíveis de serem estimuladas são cuidadosamente pensadas, projetadas ou desenvolvidas vernaculamente. Assim, quando temos uma edificação bem elaborada, e que estimule de tal maneira, nos deparamos com arquitetura, e não mais um simples conglomerado de matérias em forma de abrigo.
Um bom exemplo de arquitetura de qualidade são nossas igrejas, desde as coloniais, jesuíticas, até nossa recente Catedral da Sé, cuja igreja original foi demolida no começo do século 20 para construção desse marco que é hoje. O impressionante das igrejas é que não é preciso ser católico para perceber toda beleza dessas edificações. Ao entrar nelas você sente todo o peso dos milênios de toda história da Igreja, retransmitido nas paredes pesadas de pedra, a penumbra criada pelas poucas janelas na parte superior das naves laterais, a planta em formato de cruz (inicialmente uma cruz com os quatro lados iguais, herança dos gregos, e posteriormente com um lado maior, representando a cruz usada na crucificação), as subdivisões em ambientes anteriores a parte principal onde ficam os bancos (nave central) para que os fiéis possam desligar-se aos poucos até chegar ao local do culto, o sistema acústico cuidadosamente desenvolvido para que todos ouçam igualmente a voz do orador, entre inúmeras outras coisas que fazem das igrejas locais tão fantásticos.
Esse exemplo é apenas para mostrar como é necessário que se sinta o lugar, não apenas que olhemos uma foto, ou um desenho muito bem feito, mas que ouçamos, cheiremos, e toquemos o lugar em que estamos, seja ele onde for, desde um apartamento de 30m² a um parque é possível estar e viver uma boa arquitetura.
Assim, para apreciar arquitetura de boa qualidade não é necessário conhecer o arquiteto que desenvolveu o projeto, conhecedor de história, ou até mesmo ser arquiteto. Precisamos simplesmente racionalizar menos e sentir mais.
maio 17, 2012 em Artnativa, Literatura, Original
maio 16, 2012 em Cinema, Longas, Não morra sem Ver
Por Marina Nania
Análise enviada pela seção Publique Sua Arte
*** ATENÇÃO – O texto que se segue, sobre o filme Medianeras, de Gustavo Taretto, contém spoiler.
Medianeras, lançado em 2011, é o primeiro longa do diretor argentino Gustavo Taretto – um desdobramento de seu curta homônimo, de 2005. O filme apresenta Martín e Mariana, dois fóbicos sociais na moderna Buenos Aires, que vivem no mesmo prédio mas, ainda assim, nunca se percebem. O espectador assiste às trajetórias das personagens – da alienação auto-imposta à sociedade à decisão de buscar uma solução para suas frustrações – que correm paralelamente, torcendo para que se cruzem, para que o casal finalmente se conheça fora do mundo virtual.
No início do filme, somos apresentados às personagens por meio de monólogos – que ocorrem, aliás, com maior frequência que os diálogos com outras pessoas, reforçando suas tendências ao individualismo e reclusão. Eles discorrem sobre como o crescimento desordenado da cidade faz com que prédios de estilos e épocas completamente diferentes acabem espremidos lado a lado. É implícita a analogia entre os prédios e os indivíduos de uma sociedade – estes, também, muito diferentes entre si, forçados a conviver em um mesmo espaço e, ainda assim, muitas vezes totalmente indiferentes uns aos outros. Essa analogia, inclusive, é o que dá nome ao filme – “medianeras”, explica Mariana, são as paredes vazias dos prédios, que não ficam viradas para as ruas. Por serem viradas para outro prédio, muito próximo, é proibido por lei que se abra janelas nas medianeiras, fazendo com que elas sejam sempre o lado mal-cuidado e sujo dos edifícios.
Durante a fala de Martín, há uma série de planos particularmente interessante, que mostra alguns prédios através de seus reflexos nas superfícies espelhadas de outros prédios – chamando a atenção para o modo como os indivíduos apresentam-se aos outros por meio de imagens. A importância da visualidade como mediadora das relações entre as pessoas e como modo de auto-expressão é abordada outras vezes durante o filme. Momentos como a história do arranha-céu favorito de Mariana e o perfil virtual da mulher que Martín conheceu por meio de uma rede de relacionamentos, por exemplo, são acompanhados de fotografias e desenhos. O hábito de fotografar foi o que tirou Martín do isolamento de seu apartamento e o fez ir para as ruas – ainda não se relacionando com as pessoas, mas já disposto a conviver com elas e vê-las através de suas lentes. Mariana, que trabalha como vitrinista, declara, ainda, acreditar que as vitrines que decora refletem sua personalidade.
Por várias vezes, Martín indica culpar a sociedade tecnológica por seus problemas, associando a comodidade de que “hoje em dia, poder fazer tudo pela internet” a sua reclusão no apartamento. Sua ex-namorada, ao deixá-lo para ir morar na América, levou consigo o amuleto da sorte de Martín, simbolicamente o prendendo em terra firme. Desde então, seu relacionamento com as mulheres tornou-se frio e superficial, e sua dificuldade em sociabilizar-se reflete até mesmo em sua cachorrinha, Susú. Outro traço apresentado por Martín, que acredito ser muito frequente na sociedade atual, é sua obsessão por ícones da cultura popular – dedicando seu tempo a bonecos de ação e histórias ficcionais o distrai de sua desconexão com o mundo real.
Mariana também busca maneiras de isolar-se da sociedade, após sair de um relacionamento fracassado e frustrada por não exercer sua profissão. Em casa, ela simula relações com seus manequins, tanto sexuais quanto sociais – ela conversa com os bonecos diversas vezes, e em no rosto de um deles está escrito “como foi seu dia?”. Sua relação com o ex-namorado – que, depois de anos de relacionamento, ela percebe mal conhecer – deteriora-se repentinamente. As fotos dos dois juntos, que Mariana mais tarde decide apagar de seu computador, demonstram o distanciamento entre o casal antes que ela própria pudesse percebê-lo. Mariana declara-se obcecada pelos livros da série Procurando Wally, e tem enorme frustração em nunca ter sido capaz de encontrar o Wally no cenário da cidade.
O caos da cidade, que origina o medo de Mariana de se perder entre a multidão e a reclusão de Martín em seu apartamento, é abordado em diversos momentos do filme. Paisagens cobertas de prédios e um céu sempre entrecortado por um emaranhado de fios de eletricidade sufocam tanto personagens quanto espectadores, e uma fotografia sempre azulada, independente da estação, dá o tom à depressiva Buenos Aires. Num ambiente desses, não surpreende tanto ver um garotinho tentando andar de triciclo em uma minúscula varanda de apartamento, ou mesmo um cachorro cometendo suicídio. Em uma cidade enlouquecedora e com o facilitamento proporcionado pela internet, o fechamento de Mariana e Martín para o mundo externo não parece tão incomum.
A mensagem do filme, no entanto, é otimista. As personagens, decidindo libertar-se de seus temores, buscam mudança. Mariana coloca um piercing, Martín abre um de seus itens de colecionador lacrados. Ambos fazem janelas em suas medianeiras, abrindo-as com as próprias mãos – voltando à metáfora prédios/indivíduos, libertando-se para, então, encontrarem-se frente a frente, mesmo que ainda não se percebessem. Mariana olha pela janela e finalmente encontra seu “Wally”, realizando o que o espectador esperava ver desde o início. Durante os créditos do filme, o relacionamento dos dois se mostra como concretizado por meio de um vídeo no Youtube. Com isso, Taretto tira da internet o estigma de inibidora da socialização no mundo real, o que é insinuado por Martín diversas vezes, evitando cair na usual crítica simplista contra o mundo moderno. Fica claro que, para o diretor, a internet, assim como as outras inovações na comunicação que vieram antes dela, não restringe as relações sociais entre as pessoas, mas as altera de maneira a exigir que sejam repensadas e reconstruídas.
maio 15, 2012 em Artnativa, Cinema, Longas, Não morra sem Ver
Por Camila Lenk
maio 14, 2012 em Artigos, Artnativa, Discografia Basica, indieozinho, Musica
Por Ana Levisky
Um dia, por acaso, escutei uma música incrível e resolvi correr atrás da banda pra conhecer mais. Foi fácil, os caras tinham só um cd na discografia, lançado no ano passado, e foi assim que eu tive acesso direto e rápido ao trabalho da banda Middle Brother. Conhecer uma música nova que te toca profundamente não é uma sorte muito comum. Agora, por causa dela ter a chance de escutar mais 11 faixas surpreendentemente maravilhosas, uma depois da outra, com certeza não é algo que acontece todo dia.
Middle Brother é uma banda americana formada por três compositores e músicos, que antes de se juntarem já lideravam cada um uma banda diferente, todas influenciadas pelas tradições folk, blues e country. Apesar de participarem de um cenário musical muito próximo, cada um dos três integrantes da Middle Brother trouxe consigo estilos muito diferentes para o novo projeto. Vocalista da Deer Tick, John McCauley possue uma voz aguda e áspera, muito potente que chama a atenção. Por isso ele carrega a maior parte das músicas mais voltadas para o rock, com levadas mais animadas e ritmo acelerado, como a faixa “Me Me Me”. Como contraponto, Taylor Goldsmith, vocalista da banda Dawes, possui um timbre mais grave, aveludado e melodioso, bastante delicado e responsável pelas músicas mais intimistas do disco – com arranjos mais simples, como em “Wilderness”, que consiste na voz acompanhada apenas do violão. Fazendo uma espécie de meio termo para esse contraste tão definido existente entre McCauley e Goldsmith, Matt Vasquez, da banda Delta Spirit, tem uma voz mais anasalada, que consegue se manter suave com seus vibratos, mas que também ganha força e se torna mais encorpada ao longo das canções, o que fica bastante perceptível na música “Theatre”.
O que parece muito bem pensado no disco, é que cada um dos três músicos fica responsável por cantar mais ou menos a mesma quantidade de músicas, que vão se intercalando. Assim, os timbres não ficam repetitivos e o equilíbrio entre as faixas se torna muito maior. De uma música completamente pra cima, com direito a um coro digno de Beach Boys, que é o caso de “Someday” – cantada por Vasquez, somos introduzidos logo em seguida à canção melancólica e lindíssima “Blood And Guts”, interpretada por Goldsmith (inclusive foi essa a primeira música que eu escutei do disco, aquela que eu ouvi por acaso e que me trouxe até aqui).
Quando não parecia que dava pra ficar melhor, o cd fecha com chave de ouro. Os três vocalistas se fazem presentes em todas as faixas, tanto através de backing vocals como na construção de harmonias muito bem trabalhadas em cima da voz de todos eles, mas sempre em cada música existe uma voz que se destaca. O que surpreende na última faixa do disco, “Million Dollar Bill”, e o que faz dela com certeza a minha favorita, é que a música é dividida em três partes, cada uma cantada por um dos vocalistas. Já o refrão é levado pelos três juntos, de forma muito rica e comovente. Me lembro muito bem da primeira vez que a escutei, não tive como fugir do choque de ouvir a voz cortante de McCauley logo depois de ter me reconfortado completamente na voz calma de Goldsmith. Em um primeiro momento até parece que a combinação dentro da mesma melodia não combina, mas não demora muito pra ficar claro o quanto essa música é especial.
É claro que a qualidade das canções, além de interpretações impecáveis, depende também bastante das letras. Muito bom ter a chance de ouvir músicas que não ficam se repetindo, mas possuem várias estrofes que se complementam e contam verdadeiras histórias ao longo de seu desenvolvimento. Acho que eu vou parar por aqui com os elogios, pra quem não conhecia a banda há poucos meses eu to me sentindo bastante tendenciosa. Mas a verdade é que nem todo mundo tem a sorte de ter aquele amigo com referências tão desconhecidas e maravilhosas como essa. Como foi por causa de um deles que eu conheci a banda, senti que era uma espécie de dever passar essa maravilha adiante. Aproveitem!
maio 13, 2012 em Artnativa, Cinema, Longas
Por Pedro Martins
Les Chansons D’Amour é um filme-musical francês dirigido por Christophe Honoré e conta a história de Ismael, representado pelo queridinho do cinema francês Louis Garrel, que vive um romance à três com Julie (Ludivine Sagnier) e Alice ( Clotilde Hesme). Contudo, com a morte de Julie, o triângulo se rompe e Ismael perde-se na vida até….. Irei parar por aqui para não estragar a história.
O filme conta também com atuações de peso de outros queridinhos do cinema francês, como Chiara Mastroianni, que interpreta Jeanne, irmã mais velha de Julie, e Grégoire Leprince-Ringuet interpretando Erwan, um estudante que altera as rotas da trama no filme. Mas o interessante, o que realmente chama a atenção, é a trilha sonora composta por Alex Beaupain(que faz uma participação especial no filme), que além de ser realmente muito boa, é cantada pelos próprios autores. Sinceramente eu nunca imaginei que Garrel ou Mastroianni pudessem cantar bem ou pelo menos que não soasse ridículo, mas eles realmente impressionam.
Além disso, um outro aspecto que vale a pena ser notado é a família de Julie. Quanto esta morre, e Ismael passa a se afastar dos familiares, estes tentam de tudo para aproximá-lo novamente, mesmo diante da recusa do personagem, ou do relacionamento à três que era mantido, porque a morte de um ente querido a todos os havia unido.
A única crítica que posso fazer é que o filme, sendo composto por 3 partes (ou 3 recortes temáticos, se preferir), acaba tendo cortes por vezes abruptos e quem assiste pode se questionar “quando isso aconteceu? Perdi algo?”. É a única crítica pois no resto o filme é excelente, não é muito longo, as músicas são excelentes e não possui temática pesada, então é aquele tipo perfeito de filme para se distrair.
maio 10, 2012 em Artnativa, Literatura, Original
Por Marco Buzetto
O problema é que eu durmo cada vez menos, cada dia menos. A noite chega, o dia parece não acabar. Dezoito, dezenove, vinte, vinte e uma horas… E nada de sono. Meu corpo até parece cansado, mas não está. Sei que não está. Meus olhos estão abertos, quase arregalados, e meu corpo ainda com energia. Não importa o que eu faça, eu durmo cada vez menos, cada dia menos.
Agora estou testando outra técnica pessoal: fico abrindo e fechando os olhos num movimento repetitivo, lento. Começo com os olhos abertos de maneira normal, fecho e os abro menos. Vou diminuindo a abertura dos olhos gradativamente tentando criar aquela sensação real de sono que sentimos quando queremos mesmo dormir. Ainda não sei dizer se funciona, mas é um bom passa-tempo.
maio 9, 2012 em Artigos, Artnativa, Musica, Original
Por Gabriela Ruffo
Tem cuíca, tem pandeiro, fala da favela, fala de amor, fala de tantas aflições do mundo, mas nem tanto mais da PM. Fala da cidade, da poesia, canta até em espanhol, mas não canta a “vida loka” do traficante na mesma intensidade. A cena mudou, assim como o público, uma nova mensagem e uma sobrevida no RAP nacional impulsionada por gente que não é tão nova assim. O RAP brasileiro está seguindo um novo rumo.
O Racionais MC’s foi fundado em 1988, uma época cheia de censuras, pudores e puritanismos. Conquistaram seu público rimando sobre a realidade das periferias urbanas, discutindo temas como o crime, pobreza, preconceito social e racial, drogas e consciência política através de uma linguagem crua e direta.
Ter essa postura e falar o que foi dito naquela época foi mais do que necessário e importante, aquele foi o momento de abrir a discussão de uma forma limpa. A forma de lutar mudou, mas a luta continua a mesma, assim como as raízes do estilo musical.
Antigamente existia a necessidade de ser agressivo para que houvesse uma aceitação cultural. Em pleno 2012 as coisas mudaram bastante, o Rap expandiu e toca simultaneamente nas festas mais caras e aonde é de graça.
Sempre lutando por independência, em todos os sentidos, o Rap se criou sozinho e demorou bastante para chegar aonde agora podemos enxergar. Há pelo menos 10 anos os rappers que se diziam underground hoje estão em evidência. O melhor exemplo é o Emicida, a partir de tudo o que conquistou, abriu diversas oportunidades para a nova geração que tem se mostrado muito talentosa como Flora Matos, Projota, Kamau, Rashid e Slim Rimografia, que estavam fazendo um trabalho muito parecido, mas que, ao invés de olhar para o que já estava sendo feito, resolveram olhar para fora e espalhar essa idéia de forma mais ampla.
Uma das maiores provas da força que esse estilo tem ganhado foi o VMB de 2011, de 11 categorias o RAP teve indicação em 7, um fato nunca antes visto. E como já era de se esperar a premiação foi dominada por Criolo, o “fenômeno Adele brasileiro”. Com três prêmios – Revelação, Melhor Disco e Melhor Música – O Rapper se consolidou de maneira definitiva no cenário nacional após 18 anos de quase anonimato.
Agora em 2012 um dos grupos dos quais mais se escuta falar é Cone Crew Diretoria. Apadrinhados por ninguém menos que Marcelo D2, lançaram em abril o clipe do single Chama Os Mulekes, que foi recorde de views em um único dia.
Os MC’s demoraram para chegar nessa sonoridade brasileira, mas agora acertaram em cheio, era isso o que faltava para a explosão verdadeira, a aproximação com a música brasileira não só nas rimas e letras e atitudes, mas na sonoridade também.
Alguns dizem que agora o RAP passou a falar de amor. Mas amor sempre foi o tema principal, as rimas são criadas por entre os sentimentos expressos de forma direta. É a alma do compositor se aproximando do cotidiano.
maio 8, 2012 em Literatura, Original
Por Diana Jalonetsky.
Enviado Pela seção Publique Sua Arte.
(I). De manhã, reparei que tinham flores no meu quarto;
te escrevi uma carta, sem intenção nenhuma de entregar.
(II). Coloquei tudo embaixo da cama,
junto com todas as outras coisas quietas que ninguém vai saber.
(III). Você sai do seu carro,
e eu estou te esperando, nervosa.
Você sorri,
e eu esqueço tudo que aconteceu.
Toda vez.
(IV). Você tem bom gosto
eu me senti pequena.
(V). Corpo, cerveja e cigarro.
(eu lembro que a gente já foi mais que isso)
(VI). Aperto no peito
Você faz que me procura e eu finjo que fujo.
A gente virou eu-e-você
eu-e-você virou pouco.
(VII). Amor só acaba uma vez.
(VIII). Pelo menos você ainda se preocupa comigo e
Pelo menos eu ainda penso em você.
maio 4, 2012 em Literatura, Original
Enviado pela seção Publique Sua Arte
O dia teria sido como todos os outros dias forçosos para Elisa não fosse aquele rapaz com mochila passar caminhando ao lado da van no terminal em direção à rua. Na verdade, como todos os dias, após sair de um vagão do metrô semi-esvaziado, se observa que as filas para entrar na van (ou perua, micro-ônibus) se estendem até a van de trás, vazia; realmente este teria sido como os outros, porque a não ser que se vire a cabeça a uns 180º graus do banco da janela não dá pra saber se o jovem caminhou para o final da fila ou para a rua. Mas a questão é que, quando a perua virou a segunda esquina, da rua que sobre direto do metrô, ela notou o mesmo jovem de mochila andando, cem metros adiante.
Andava normalmente; foi o que Marcela viu quando tentou se certificar de que o rapaz não estava correndo todo aquele caminho. Seu próprio ponto ficava uns 400 metros pra frente do lugar onde estava o rapaz e Heloísa percebeu que ele não demoraria muito mais para chegar lá do que ela, que já tinha que se preparar para dar o sinal e descer.
Mas apesar disso, Joana tinha noção de que se tratava de uma subida bem íngreme, e que era um grande desgaste esse deslocamento até seu ponto, e por ser jovem o rapaz seria capaz de realizá-lo tranquilamente, ou à custa de algumas gotas de suor. Se ele suaria, imagine ela. Mas talvez fosse proveitoso, se se considerasse o desgaste como exercício.
Três dias depois, Carla esperou 20 minutos sentada antes de a perua sair. Já estava nervosa; do momento em que perua sai do terminal são geralmente 5 minutos até o ponto próximo de sua casa, e não podia ser que se demorasse tanto tempo assim parado! Lembrou-se do rapaz, que, se tivesse passado por ela, já teria chegado ao ponto onde ela, Luiza, descia. Teria sido melhor fazer como ele então. Mas, se pagava o valor da tarifa era porque não queria ter aquele desgaste, depois de um dia inteiro de trabalho. Mas era um grande desgaste esperar 20 minutos numa van cheia, perguntando-se porque os motoristas estão conversando e fumando em vez de levar os passageiros pra suas casas…
No dia seguinte, Monica viu o jovem novamente, só que da fila do terminal, e pode vê-lo andar tranquilamente em direção à rua. Se ela ainda ia esperar a próxima perua pra ir sentada, e então, como acontecia frequentemente, esperar mais uns 15 minutos até sair, provavelmente o rapaz passaria de seu ponto muitos antes de ela lá descer, e talvez até chegasse à casa dele – onde quer que fosse – antes de Estela dar o sinal. Logo pensou que, indo de ônibus, evitava o caminho meio escuro e deserto que era a subida, podia ser perigoso. Não sei ele, mas ela temia um pouco o risco…
Priscila, às vezes pensava no caminho. Aquele dia tinha saído mais cedo do trabalho, e podia ser que as filas no terminal estivessem um pouco maiores. Já bastava a lentidão do metrô, não queria perder mais tempo.
Chegando no terminal, encontrou um movimento normal das filas e passageiros – o de sempre. Até que estava bom. Não. “Hoje vou a pé.” Estava tranqüila. Não queria perder nenhum tempo e afinal poderia economizar uma passagem. Estava decidida. Inicialmente caminhou a passos rápidos, e ao passar a esquina da rua da estação diminuiu o ritmo. Passou na frente do bar. “Deve estar pra fechar.” Já ultrapassava o primeiro ponto e a perua ainda não tinha saído. “Tá vendo só.” Quem sabe fazer isso mais vezes. Ia tranquila; barulhos de carros na rua da estação e da paralela eram constantes. Às vezes um ou outro passava subindo.
Talvez por isso Gisele não tivesse notado a ligeira aproximação de dois homens, senão no segundo mesmo antes de lhe agarrarem violentamente, uma mão na boca e um braço pela cintura, enquanto uma outra apertava sua bunda e a segurava do outro lado.
Foi arrastada esquina adentro e suas pernas vez ou outra saíam do chão e ao fazerem força para parar, e para o lado contrário. Na quinta vez que fez esse esforço, em represália à resistência e aos gritos, uma das mãos que machucavam seus braços se enterrou fechada em sua barriga e um chute acertou sua ante coxa esquerda. Gritava como que inutilmente porque mantinham a mão pesada tapando toda a força de sua garganta, sem conseguir se livrar dos braços que lhe seguravam. Fizeram sua cabeça bater numa passagem baixa de tapume, de uma obra de um prédio em fase intermediária de construção. Suas costas se dobraram sobre um monte de tábuas, num canto. Puxavam seus cabelos…
Seus gritos já tinham cessado quando o segundo cinto tilintou no chão. Tinha-se passado meio hora do momento em que saiu do metrô.
9 de janeiro de 2012.
Concebida em dezembro de 2011.
maio 2, 2012 em Literatura, Original
Por Dulce Stockler
Poema enviado pela seção Publique Sua Arte
Não saber
sentir
ouvir
decifrar
encontrar
realizar
compartilhar
enigma
quebra-cabeça
xadrez-chinês
composição
ritmo
afinação
voz
violão
satisfatório
razão
emoção
razoável
precisão
tentar
conseguir
explorar
construir
ruir
sustentar
manter
devoção
amor
por você
caminho das pedras
Pedra Filosofal
pedra bonita
DIAMANTE
abril 29, 2012 em Artnativa, Literatura, Original
Por Marco Buzetto
Não era de todo desconfortável.
Esta casa tinha seus devidos banheiros, para que os animais se condicionassem a fazer sua sujeira reservadamente. Esta casa possuía treinadores, alimentadores, grandes bebedouros com água fresca.
Era uma boa jaula. Claro que sim. Não podemos negar.
O que há de ruim em manter este tipo de animal em um zoológico, para agradar famílias e olhares curiosos? Onde está o erro em querer manter um espécime tão raro e ao mesmo tempo parasitário dentro de uma jaula para que as gerações futuras o conheçam vivamente?
As placas diziam: “Não alimente os animais”. Mas alguém sempre se arriscava e lançava a eles algum pedaço de comida, alguma fruta.
Alguns comentavam entre si: “Que bichos mais estranhos”. “Que tipo de ambiente eles construíram para si”?
Outros, porém, riam de suas formas tão estranhas: “O que eles são afinal”? “Que tipo de proeza fazem”?
De repente, grades se levantaram ao redor da jaula, para proteger o público, e gritos, urros, berros eram ouvidos a quilômetros de distância. Os pássaros assustados voavam em bando, da esquerda para a direita… “Bicho demoníaco, monstruoso, pesadelo real”. Fora então lançado dentro da jaula mais um daquela espécie.
Onde diabos encontravam tantos? Parecia praga. Ainda bem que não havia muitos sobre a Terra.
Era um espécime quase adulto, com seus aproximados vinte anos, algo assim. Os outros animais enjaulados haviam se escondido atrás de árvores. Mas, minutos depois, resolveram se cheirar; e tocaram-se uns aos outros, como se soubesse o que fazer.
Estes animais pareciam entender-se entre si. Mexiam suas bocas, como quem ousasse dizer algo. Mas ninguém entendia; não quem estava de fora, de público.
Alimentavam-se de um modo estranho, sem prazer pela refeição.
Banhavam-se a todo instante, em mangueiras d’água adaptadas por eles próprios.
De seu ato reprodutor não nasciam outros espécimes. Pareciam controlar a taxa de natalidade de seus iguais. E sentiam prazer em realizar aquele ato. Não era instinto apenas… Não era correto. As fêmeas não estavam no período de cio. Elas é que procuravam seus machos. Parecia um circo de horrores.
Todos nós, do público, observávamos atentos, e de boca aberta àqueles animais tão raros. Ficávamos horas, abobados, indignados com o que faziam. Alguns deles adaptaram lâminas de metal, e quando sentiam-se encalorados, raspavam seus pelos, da face, os da cabeça, entre as pernas e os braços. Era uma imagem grotesca. Assistíamos atordoados, enojados sua tamanha adaptação.
Os machos, que horror, e também algumas fêmeas, cortavam suas unhas. Como é possível? Seria uma adaptação da natureza, pois não precisavam caçar (recebiam comida a todo instante)?
Aquele era o zoológico mais estranho e bizarro que eu havia conhecido. Era o que todos comentavam ao meu redor.
A instrução que recebíamos sempre que fossemos visitar esta ala do zoológico, era de que estes animais eram os mais perigosos de toda a natureza. Deveríamos tomar o máximo de cuidado, para que nenhum deles se aproximasse demasiadamente. Mesmo com jaulas e grades por todos os lados.
Havíamos sabido que seu poder de adaptação era realmente rápido, e seus cérebros evoluíam livremente durante os anos. Todo conhecimento era absorvido. Havíamos sabido que em seu tempo eles devastavam as planícies, secavam e tornavam a água insalubre. Matavam uns aos outros, e não comiam sua carne. Não consigo encontrar uma finalidade nestes atos. Eram realmente perigosos!
Ainda tenho pesadelos com aquelas jaulas. Muitos pesadelos. Cada dia mais assustadores.
Sempre que fecho os olhos, meus sonhos se enchem daquele nome: Homo Sapiens Sapiens, Homo Sapiens… Sapiens, Homo Sapiens… Sapiens (?).
abril 26, 2012 em Artnativa, Cenicas, Cinema, Longas, Original, Rolê Cultural
Por Camila Lenk
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- Dance, Dance
senão estaremos perdidos!
Pina
Hoje eu sai do cinema da mesma forma que saí quando acabei de ver o filme “Melancolia”, de Lars Von Trier. Saí desolada. Não acreditando no mundo que vivo. Com medo do que me esperava lá fora. Hoje foi a vez de “Pina” tirar meus pés do chão.
Ao final, saí decidida a voltar para minhas aulas de teclado. Mas me aprofundar no Piano agora. No piano clássico. Eu precisava de algo para suprir o que aquelas duas horas de filme me supriram. Minha amiga, emocionada, não queria mais adiar sua volta ao balé.
Um filme de extremos.
Solidão extrema, mansidão extrema, demonstrações extremas, amor extremo.
Saí de lá com vontade de me apaixonar por um hipopótamo.
Saí da sala um pouco fissurada. Uma mistura de medo e sabe-se-lá-o-quê.
A primeira cena foi uma amargura interna sem fim, onde os bailarinos/atores externavam tudo aquilo que eu não conseguia imaginar. As palavras eram desnecessárias.
Era tudo claro, transparente, simples, inédito. Inacreditável.
Para entender Pina, imagine você mesmo puxando seu próprio cabelo. Foi assim que uma bailarina mencionou.Pina não explicava. Só observava. Ela não é decifrável. Nem nunca será. Por isso, não trata-se de uma explicação. Você sairá da sala com mais mais dúvidas do que respostas.
A ‘Sagração da Primavera’, com música de Strancinsk foi a que mais me doeu. Foi difícil me conter. Meu olho pesava. Vontade de soltar lágrimas consentidas. Ao mesmo tempo eu ria.
*Uma dor auto-destrutiva, que não destruía. Ao contrário: era o que unia.
Uma dor que por vezes negamos, porque o mundo não pode nos ver tristes.
O documentário te faz crer e descrer da vida. As coreografias te fazem arrepiar.
Não há nada a ser entendido. Nem os filósofos procurariam explicações. O filme é pra ser sentido. Nada mais.
Extrapolar. Amargurar. Sentir. Ser. E tudo aquilo que puder definir o exagero dos sentimentos. Esta é Pina.
Há terra e água nos cenários. A água tentando “quebrar” a pedra. A terra reconstruindo um ser. Podando.
Há muita amargura. A amargura você sente na cadeira. Dá vontade de levantar as mãos, mexer, se virar e contorcer. Dá vontade de se soltar. ‘De se ser’.
Até as respirações dos bailarinos/atores eram sincronizadas. Os passos eram automáticos e ao mesmo tempo incrivelmente naturais.
Não é um filme sobre dança. É um filme que te faz querer ser melhor. Te faz respirar aliviadamente. No final de cada cena, você pensa: “Ufa!” Sim, porque dá medo e você acha que não vai aguentar tanto sentimento.
Aquilo tudo me doía e me pesava, de tão bonito que era. É enlouquecedor!
Pina despertava seus anjos e demônios como ninguém.
- O filme acabou e minha amiga virou-se pra mim, dizendo: “Simplismente sensacional”!
Já na porta de saída, meio que sem palavras, exitei num “adorei!”
Uma Senhora que estava sozinha, aparentava ter uns 50 anos, ouvindo minha opinião, virou-se pra nós e disse com um sorriso amarelo: “-Eu também adorei!” E prosseguiu: “Eu que vivo numa vida tão conturbada, cuidando de minha mãe que está acamada… ” respirou. “É um alívio um filme desse. Saí mais animada pra encarar o que vier”.
Pessoalmente, senti um despreparo ao sair do cinema. Saí despreparada para a atormentação mundana. Despreparada para conviver com as pessoas hipócritas, mesquinhas e vaidosas. Senti um transtorno em pensar no Paraíso Fiscal, no trânsito, no ônibus lotado, nos kilômetros de distância que me separam de quem eu amo. Saí com medo dos psicopatas, dos maldosos, dos interesseiros. Saí com vontade de conversar só com gente interessante!
- O mundo aqui fora me assusta.
Mas, apesar dos pesares, ao exemplo da Senhora que citei acima, decidi me animar pra encarar o plano físico.
Sim, você que sabe entregar seu coração para as coisas simples da vida, como uma seção de cinema, sairá transtornado e aliviado.
Vai querer cantar e dançar. E enlouquecer.
E vai se lembrar, que a vida é bela, trágica e misteriosa. E vai querer aproveitar.
Vai se emocionar. E rir. E possivelmente querer chorar de emoção..
Vai querer dançar para se perder e se achar.
abril 12, 2012 em Literatura, Original
Por Cris Licio
Enviado pela seção Publique Sua Arte
Há quem diga que os brotos mais tardios da primavera são os mais lindos e perfeitos, teu jardim alcançou a estação depois do tempo esperado e de maneira exuberante, enchendo nossos olhos de vida.
Emocionante assistí-lo florescer, passar pelo inverno, outono e atingir a primavera nesta explosão de cores, aromas e formas. Uma surpresa em vários aspectos, pois há espécies de flores que eu nem desconfiava existir. Havia sementes de árvores que, quando germinaram, tímidas e despretensiosas, eu nunca teria arriscado imaginar que dariam sombras tão acolhedoras e floradas tão belas e simples.
Há passagens sombrias, sugerindo mistérios, heras fechando a visão do céu, e do chão firme e fértil e ainda arejado e gentil, crescem malvas, que completam o ar com seu perfume. Quando chove, todo o verde se intensifica e os ramos se curvam com o cair das gotas, agradecendo a Deus o esperado presente.
Pássaros e animais silvestres invadem o espaço durante o correr do dia, brincando, buscando alimento e à noite achando o abrigo tão necessário. Você, meiga e forte, acolhe a todos. Você, meiga e forte acolhe meu coração, cada dia mais admirado e grato. Tudo o que vejo e experimento me leva a ter certeza de que seu verão será invencível, de que seu futuro será lindo e pródigo, pois você mostra que não somente sabe o que quer, mas o quer com tranqüilidade e firmeza, tendo o coração sempre no lugar certo. E sorrio muito feliz, pois tudo o que eu quero é te ver contente. Tudo o que peço a Deus é que você saiba correr atrás daquilo que te faça inteira, filha.
abril 11, 2012 em Literatura, Original
(fotografia de Dulce Stockler)
Por Dulce Stockler
Enviado pela seção Publique Sua Arte
Recomeçar, além de começar de novo, traz na bagagem um acúmulo de experiências que contribuirão na vida presente. Relacionamentos, metas, objetivos. Somados à nova fase, firmando e fortalecendo propósitos e atitudes vindouras. Essas experiências trazem um olhar sereno e a imensa vontade de seguir o caminho. Enfrentar os riscos da existência de viver. Nada nem ninguém lhe tomará seu destino.
Dificuldades e Facilidades, faces da mesma moeda. O ponto de vista e foco nortearão sua busca. Rotas de generosidade, compartilhamento e lealdade entrelaçam-se à ambição, ganância e oportunismo. E você sempre pode e deve, parar e pensar no caminho a seguir. Cuidado e responsabilidade consigo próprio e com o mundo externo.
Passo n. 1: Enfrentar com perseverança e determinação as dificuldades para obter o prêmio da superação – injeção de confiança..
Passo n .2: Não deslumbrar-se com as facilidades, elas são breves, um suspiro e funcionam como termômetro de incentivo. Sim, são um bálsamo, trazem a felicidade e o prazer da criança.
Sentir, observar, expressar. Mãos à obra. Quem pode me ouvir ? Em que espaço poderei atuar ? Serei sintético e objetivo. O mundo é uma máquina e em sua engrenagem estão o planejamento, idéias, finalização e objetivo, com pouco espaço para margem e manobra.
O Mágico e o Belo fazem parte das relações humanas, suavisam o frenético movimento de produção. Expressam a arte, desfazem-se de regras e convenções. Irreverentes, criativos, originais.. A pintura na face, o canto, o timbre da corda, o ritmo, o desenho, a imagem, a textura. Enchem os olhos do espectador. Emprestam cor e alegria às obrigações, modificam os costumes. Provam a simplicidade da vida. Exibidos ou discretos. Muitos optam por esse caminho sem precisar de especialidade ou genialidade. Toca o barco! Vale a pena viver!
Fim
abril 10, 2012 em Blogs, Literatura, Original
Por Marco Buzetto
Precipício não era apenas um reino. Era um local sagrado, onde as pessoas se reuniam para resolver seus problemas mais pesados, mais demorados, mais sangrentos e vergonhosos.
O Rei deste lugar não se importava com a movimentação crescente, com o fluxo de pessoas que freqüentavam seu império. Não! Nada disso. Ele realmente gostava daquela quantidade de pessoas indo e vindo de lá para cá em seu reino. Era feliz assim; todos eram felizes desta maneira.
– Levantem-se! Todos serão felizes aqui, em Precipício. – gritava o governador daquelas terras. Comam, bebam, sejam felizes.
Lá não havia tristeza, apesar dos problemas de todos. Podíamos resolver qualquer coisa da maneira mais fácil. Precipício tinha um clima bom, apaziguador. Todos gritavam isto aos visitantes e pela vizinhança afora. E quando estes visitavam o lugar, percebiam que não havia mentira naquelas palavras gritadas ao vento.
– Todos terão sua vez, meus filhos. Não fiquem tristes, pois aqui não é lugar para isso. Existe um farto banquete em meus salões. Então, festejem e comemorem sua conquista. – dizia o Rei.
Neste reino havia tudo o que uma pessoa precisasse para o resto de sua vida. Havia comida farta, bebida da melhor qualidade, mulheres aos homens e homens às mulheres. Havia jogos para as crianças, lendas, histórias. Tudo era possível ser encontrado em Precipício.
– Eis o local sagrado que os deuses desejam, mas nunca freqüentam. Apenas um deles aqui chegou, festeiro, alegre, decidido. O deus único. Sim, aquele deus de pouco mais de dois mil anos de idade. Ficara tão feliz com o que encontrou, que nunca mais fora embora. O deus único e verdadeiro. Este sim fora corajoso. Ele trouxe consigo um amigo tão belo quanto ele próprio, de tom avermelhado, com dois cornos em sua testa e com um sorriso delicado e feminino. De início pensei que fosse sua parceira, mas lembrei-me de que este deus era divino demais para ter uma mulher ao lado. Vi então que era seu mais precioso amigo e o mais fiel inimigo. Porém, este não permanecera aqui por muito tempo. Preferiu tomar conta dos negócios, enquanto o outro aqui permanecia.
Não havia homem forte o bastante que não adentrasse os portões de Precipício, tampouco mulher corajosa e dedicada que não fizesse o mesmo. Não havia rico nem pobre que não quisesse sua vez aqui. Era o único lugar na Terra que não distinguia as pessoas: advogados, juízes, professores, religiosos, vagabundos, alcoólatras, ladrões, assassinos, homens, mulheres, crianças, insanos ou sãos, inocentes ou culpados. Não havia distinção. Todos recebiam o mesmo tratamento.
– Aqui é o verdadeiro paraíso. O paraíso dos Homens. A herança dos deuses. Aqui é onde vocês, dedicados, podem resolver qualquer problema. Pois ao menos estes são diferentes, ou um mais importante que o outro. São todos iguais em Precipício. Este é o valor dos Homens. Esta é sua morada, seu teto, seu refúgio.
Este sim era um homem feliz. O Rei de Precipício sempre soube o que dizer para animar seus súditos e visitantes. Este sim era um homem íntegro, justo, que não distinguia cores e sexo.
Este era o lugar no qual todas as pessoas se sentiam melhor. Este era o lugar do qual todos falavam. Este sim era o lugar certo para os Homens. Se até mesmo aquele deus solitário esteve por aqui… Os Homens e suas derrotas e mentiras também estarão.
E continuava o Rei, com sua voz cada vez mais forte e convidativa, a qual todos podiam ouvir perfeitamente, sem ruídos, sem desafino:
– Bem-vindos à Precipício!
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http://marcobuzetto.blogspot.com
abril 6, 2012 em Artnativa, Blogs, Literatura, Original
Por Camila Lenk
Mais textos dessa autora no blog http://camilalenkdesnudando.blogspot.com.br
Se conheceram numa dessas festas alternativas onde pessoas do mesmo sexo se beijam e se gostam.
Ela era moderna, desencanada e sacana. Ele não sabia o que estava fazendo ali.
Ela não revelava seus segredos. Ele precisava falar de si para se auto-conhecer.
E entre um trago e outro, ele contava dos seus medos e tensões. Explicava seus planos e ela contava o que já fez.
Ele gostava de falar. Ela ponderava suas palavras.
- Mas, fale de você. Perguntou João. O nome dele era João.
- Não falo de mim.
- Qual o problema de falar de si? Tem medo de se entregar?
- Não se afobe, menino. Não lhe revelarei meus segredos, mas ajudarei você a descobri-los.
Não tinham nada em comum, mas gostavam das mesmas coisas.
Cada vez mais que se conheciam, apareciam novas diferenças. Logo mais, as diferenças se tornavam mínimas diante do afeto que crescia.
Não gostavam de rotina.
Ela acordava disposta a arrancar cada gota de amor de dentro dele.
Ele amanhecia e dormia querendo conquista-la.
Ele queria casar.
Ela só pensava em juntar.
No aniversário dele, ela o presenteou com um cachorro. Na Páscoa com um coelho. E no Natal com dois periquitos.
Ainda bem, ele gostava de animais.
Ele admirava o fato de ela conseguir ser linda e louca. Charmosa e inconsequente. Responsável e prudente; Tudo ao mesmo tempo.
Ela tinha fetiches malucos. Ele tinha desejos incabíveis.
Ela queria ser do contra. Ele gostava de discordar.
Gostavam de chocolate quente com farinha-láctea. De mergulho e de cinema.
Jamais se drogaram. Sabiam: a droga mais alucinógena é o amor!
Gargalhavam juntos todos os dias. Brigavam de hora em hora. Faziam as pazes no mesmo instante.
Ela não usava cinto de segurança. Ele tinha medo dos buracos do asfalto e dos menos 7 pontos na carteira.
Ela não tinha receio de blitze. Ele não bebia caso fosse dirigir.
Não se completavam. Se dividiam. Se estrapolavam. Se ajudavam.
Para ele, a vida era cheia de perguntas, mas quando ela chegou ele conseguiu descobrir metade das respostas.
Ela não entendia nada.
Ela era distraída e esquecida. Ele se espantava com tudo;
Ela era fiel com os que amava. Era mais humana que estética.
Tão lúcida em princípios.
Ele amava isto dela.
Ela gostava das pessoas. Da algazarra. Da multidão.
Ele apreciava lugares solitários. Ela era plural. Ele era singular.
Num dia nublado estavam na cozinha cozinhando a refeição. Ela estava virada pelo fogão, e ele chegou por trás dizendo baixinho:
-Queres ser minha noivinha?
Ela disse em alto e bom tom: – Ora, é claro que quero. Mas não pense em casar!
João, então, apaziguado com a situação, encontrou uma solução.
-Queres ser minha noivinha pra sempre?
Ela disse sim, sim, sim. Mil vezes que sim.
No outro dia, roubou a rosa do vizinho, escreveu um bilhetinho e colocou na frente do portão dela. Ao ler, ela suspirou baixinho:
“- E nada existe sem razão”!*